Proteína na dieta vegan
Reed Mangels, Ph.D, R.D. (nutricionista)
De Vegetarian Resource Group
Resumo: É muito fácil, com a dieta vegan, atender às recomendações proteicas, contanto que a ingestão de calorias seja adequada. Não é necessário combinar estritamente as proteínas; é mais importante ter uma dieta variada durante todo o dia.
Alguns americanos são obcecados por proteína. Vegans são bombardeados com perguntas sobre suas fontes proteicas. Atletas costumavam comer grossos bifes antes das competições porque achavam que isso melhoraria seu desempenho. Vendem-se suplementos proteicos nas lojas de alimentos saudáveis.
Esta preocupação está equivocada. Embora seja claro
que a proteína é um nutriente essencial, com muitas papéis
fundamentais no funcionamento de nosso corpo, não precisamos de
grande quantidade dela. Na verdade, precisamos de pequena quantidade de
proteína. Somente uma caloria de cada dez que ingerimos precisa
vir da proteína(1). O desempenho atlético na verdade é
melhorado por uma dieta rica em carboidratos, e não em
proteínas(2). Os suplementos proteicos são caros, desnecessários
e mesmo nocivos para algumas pessoas.
De quanta proteína precisamos? A RDA (ingestão diária
recomendada) é de 8 décimos de grama de proteína a
cada quilo de peso corporal(1). Esta recomendação inclui
um fator de segurança generoso para a maioria das pessoas. Ao fazermos
alguns ajustes para compensar o fato de algumas proteínas vegetais
serem digeridas de forma um tanto diferente da proteína
animal e para contrabalançar o conteúdo em aminoácidos
de algumas proteínas vegetais, chegamos ao nível de 1 grama
de proteína por quilo de peso corporal.
Como os vegans ingerem várias fontes de proteína vegetal,
a recomendação proteica para eles seria algo entre 0,8g e
1g de proteína por quilo. Se fizermos alguns cálculos veremos
que a recomendação de proteína para vegans se aproxima
dos 10% das calorias ingeridas que devem vir das proteínas. [Por
exemplo, um homem vegan de 79kg entre 25 e 50 anos. Sua RDA é de
2900 calorias por dia. Sua necessidade proteica pode chegar a 79kg ×
1g/kg = 79g de proteína. 79g de proteína × 4calorias/grama
de proteína = 316 calorias de
proteína por dia. 316 calorias de proteína dividido por
2900 calorias = 10,1% de calorias oriundas de proteínas]. Se observarmos
o que os vegans estão comendo, descobriremos que entre 10% e 12%
das calorias vêm das proteínas(3). Isto contrasta com a ingestão
de proteína dos não-vegetarianos, que fica por volta de 15%
a 17%.
Assim, nos Estados Unidos parece que as dietas vegans costumam ter menos
proteína que a dieta americana padrão. Mas é bom lembrar
que, no caso da proteína, mais (do que a RDA) não é
necessariamente melhor. O consumo de uma dieta muito rica em proteína
não parece oferecer vantagens para a saúde. Dietas ricas
em proteína podem até aumentar o risco de osteoporose(4)
e de problemas renais(5).
Tabela 1: Amostra de cardápios que mostram como é
fácil atender à necessidade de proteínas
Café da manhã
Recomendação de consumo de proteína para um homem vegan 63-79 gramas [com base em 0,8-1 grama de proteína por quilo de peso corporal para um homem de 79 quilos]
Café da manhã
Recomendação de consumo de proteína para uma mulher
vegan 50-63 gramas [com base em 0,8-1 grama de proteína por quilo
de peso corporal para uma mulher de 63 quilos]
Devem-se adicionar mais alimentos a estes cardápios para fornecer
a quantidade adequada de calorias e para atender à necessidade de
outros nutrientes além da proteína.
A tabela 2 mostra a quantidade de proteína de vários alimentos
vegans e também o peso em gramas de proteína em cada 100
calorias. Para atender às recomendações proteicas,
o homem adulto médio vegan só precisa de 2,2g a
2,7g de proteína a cada 100 calorias, e a mulher adulta média
vegan de 2,3g a 2,9g de proteína a cada 100 calorias. Estas quantidades
recomendadas podem ser facilmente conseguidas em fontes vegans.
Tabela 2: Conteúdo de proteína de alguns alimentos
vegans
ALIMENTO
Fonte: USDA Nutrient Database for Standard Reference (Base de dados de nutrientes como padrão de referência), número 12, 1998 e informações dos fabricantes.
O consumo de proteína recomendado para homens vegans adultos é de 63g a 79g de proteína por dia; para mulheres vegans adultas, entre 50g e 63g por dia (ver o texto).
É muito fácil seguir a recomendação proteica
com uma dieta vegan. Quase todos os legumes, feijões, cereais, nozes
e sementes contêm alguma proteína, e muitas vezes contêm
bastante proteína. Frutas, açúcares, gorduras e álcool
não fornecem muita proteína, e assim uma dieta baseada
apenas nestes alimentos, com grande probabilidade, será pobre em
proteína. No entanto, não conhecemos muitos vegans que vivam
só de banana, doces, margarina e cerveja. Os vegans que seguem uma
dieta variada que contenha legumes, feijões, cereais, nozes e sementes
raramente terão dificuldade para conseguir proteína suficiente,
contanto que sua dieta contenha energia (calorias)
suficientes para manter o peso. [Consultar nas seções
sobre Gravidez, Aleitamento e Bebês e Crianças mais detalhes
sobre a necessidade de proteína nestas épocas especiais.]
A Tabela 3 mostra a quantidade de proteína em alguns alimentos
de origem animal. Muitos destes alimentos são ricos em proteína,
tão ricos que seria difícil ficar abaixo do limite superior
sugerido para a ingestão de proteína, que é, para
adultos, de 4,5g por 100 calorias(6). A dieta vegan variada pode fornecer
proteína em quantidade adequada, mas não excessiva.
Tabela 3: Conteúdo de proteína de alguns alimentos
de origem animal
ALIMENTO
A RDA de proteína para homens adultos é de 63g por dia; para mulheres adultas, 50g diárias. Recomenda-se a média de não mais que 4,5g de proteína por 100 calorias(6).
Uma porção de 30g de carne ou peixe é pequena, mais ou menos do tamanho da palma da mão de uma mulher adulta.
E a combinação ou complementação de proteínas?
Isso não tornaria muito mais complexo o caso da proteína?
Vamos dar uma olhada nos antecedentes do mito da complementação
de proteínas. A proteína é feita de aminoácidos,
descritos muitas vezes como tijolos. Na verdade, temos necessidade biológica
de
aminoácidos, e não de proteínas. Os seres humanos
não podem fabricar nove dos vinte aminoácidos mais comuns,
e por isso eles são considerados essenciais. Em outras palavras,
precisamos recebê-los na dieta. Precisamos
dos nove aminoácidos para que nosso corpo fabrique proteína.
Ovos, leite de vaca, carne e peixe foram chamados de proteína
de alta qualidade(1). Isto significa que contêm grande quantidade
de todos os aminoácidos essenciais. Soja, quinoa (cereal nativo
dos Andes) e espinafre
também são considerados fontes de proteína de
alta qualidade. Outras fontes proteicas de origem não-animal costumam
ter todos os aminoácidos essenciais, mas a quantidade de um ou dois
deles pode ser pequena. Por exemplo, os cereais têm pouca lisina
(aminoácido essencial) e as leguminosas têm menos metionina
(outro aminoácido essencial) do que as fontes proteicas ditas de
alta qualidade.
Frances Moore Lappe, em seu livro Diet for a Small Planet(7) (Dieta
para um Pequeno Planeta) defendia a combinação de um alimento
pobre em certo aminoácido com outro que contivesse grande quantidade
daquele mesmo aminoácido. Este processo acabava ficando muito complicado,
já que nele cada refeição tinha porções
específicas de certos alimentos para chegar a uma mistura favorável
de aminoácidos. Muita gente foi desencorajada pela complexidade
desta abordagem. Na verdade, Lappe foi excessivamente conservadora para
evitar críticas do "Grupo Dominante da Nutrição".
Depois ela rejeitou a combinação estrita de proteínas,
e disse: "Para combater o
mito de que comer carne é a única forma de conseguir
proteína de alta qualidade, reforcei outro mito. Dei a impressão
de que, para conseguir proteína suficiente sem carne, era necessário
muito cuidado na escolha dos alimentos. Na verdade, é muito mais
fácil do que eu pensava."(8)
Recomendamos a ingestão de vários cereais não-refinados, leguminosas, sementes, nozes, legumes e verduras durante todo o dia, para que, caso algum alimento seja pobre em determinado aminoácido essencial, outro alimento cubra este deficit(9,10).
Mesmo que você só coma um tipo de alimento, sem a variedade
típica da dieta vegan, provavelmente receberá quantidade
suficiente de proteína e aminoácidos essenciais. Lembre-se
de que quase todas as fontes proteicas de
origem não-animal contêm todos os aminoácidos essenciais.
Você só precisaria comer quantidade bastante da fonte de proteína
(caso haja apenas uma fonte de proteína na sua dieta) para suprir
a necessidade de aminoácidos
essenciais. A Tabela 4 (ver abaixo) mostra a quantidade de vários
alimentos que um homem adulto teria de ingerir caso só usasse uma
única fonte alimentar para atender às suas necessidades proteicas.
As mulheres precisariam de cerca de 20% menos de cada alimento, devido
à quantidade menor recomendada para mulheres.
Tabela 4: Quantidade de alimentos capaz de fornecer o total
recomendado de aminoácidos essenciais
8 xícaras de milho cozido OU 8 batatas médias OU meio quilo de tofu OU 6 xícaras de arroz integral cozido
Qualquer dos alimentos acima, ingerido no total indicado, forneceria
a quantidade recomendada para um homem adulto de todos os aminoácidos
essenciais. As mulheres precisariam de mais ou menos 20% menos de cada
alimento, devido à quantidade menor recomendada para elas. Este
conceito é ilustrado abaixo:
Alimento
Fonte: Composition of Foods, USDA Handbook 8.
A quantidade de aminoácidos está expressa em miligramas.
Tri = Triptófano,
Tre = Treonina, Iso = Isoleucina, Leu = Leucina, Lis = Lisina, Met+Cis
=
Metionina + Cisteína, Fen+Tir = Fenilalanina + Tirosina, Val
= Valina
Notas bibliográficas
1. Food and Nutrition Board, National Research Council: Recommended Dietary Allowances, 10ª ed. Washington, DC: National Academy Press, 1989.
2. Bergstrom J, Hermansen L, Hultman E, Saltin B. Diet, muscle glycogen and physical performance. Acta Physiol Scan 1967; 71: 140-150.
3. Messina M, Messina V. The Dietitian's Guide to Vegetarian Diets. Gaithersburg, MD: Aspen Publishers, 1996.
4. Kerstetter JE, Allen LH. Dietary protein increases urinary calcium. J Nutr 1990; 120: 134-136.
5. Dwyer JT, Madans JH, Tumbull B, et al. Diet, indicators of kidney disease, and later mortality among older persons in the NHANES I epidemiologic follow-up study. Am J Public Health 1994; 84: 1299-1303.
6. Committee on Diet and Health, Food and Nutrition Board: Diet and Health. Implications for Reducing Chronic Disease. Washington, DC: National Academy Press, 1989.
7. Lappe FM. Diet for a Small Planet. New York: Ballantine Books, 1971.
8. Lappe FM. Diet for a Small Planet, 10th anniversary edition. New York: Ballantine Books, 1982.
9. Young VR, Pellett PL. Plant proteins in relation to human protein and amino acid nutrition. Am J Clin Nutr 1994; 59 (suppl):1203S-1212S.
10. Position of The American Dietetic Association: Vegetarian diets. J Am Diet Assoc 1997; 97: 1317-1321.
11. Kies C. Bioavailability: A factor in protein quality. J Agric Food Chem 1981; 29: 435-440.
Este artigo foi publicado pela primeira vez no livro Simply Vegan: Quick Vegetarian Meals (Simplesmente Vegan: Refeições rápidas vegetarianas), de Debra Wasserman. Seção sobre nutrição a cargo do nutricionista Reed Mangels, Ph.D. (ISBN 0-931411-20-3)
Tradução: Beatriz Medina
- Hits: 1027







